
Capítulo XII - De volta pra casa
A mansão está silenciosa.
Dumont caminha entre os corredores agora desertos, a respiração aos poucos se acalmando, os olhos atentos a cada detalhe. A tapeçaria, os quadros tortos, o mármore riscado pelo conflito — tudo parece já pertencer ao passado.
Ele encontra uma porta nos fundos, camuflada entre prateleiras falsas. Ao abri-la, se depara com uma escadaria de pedra que desce suavemente em espiral. A brisa úmida que sobe do outro lado cheira a grama, óleo... e liberdade.
Dumont segue o caminho até emergir num jardim vasto como um campo de pouso. Os muros altos ao redor são cobertos por heras espessas, e ao centro, alinhados com precisão militar, repousam quatro aeronaves Spitfire — como estátuas de águias prestes a voar.
O coração do Capitão salta no peito.
Ele se aproxima, os olhos passando por cada detalhe: a fuselagem ainda quente, os tanques abastecidos, o som ocasional do metal contraindo ao toque do vento. Em um dos aviões, um botão azul no painel chama sua atenção — o mesmo tom luminoso que o trouxera a este mundo.
Dumont entra na cabine do aparelho. Ele liga o motor e o som do V-12 preenche o jardim como um trovão mecânico. Ele veste os óculos, prende os cintos, ajusta os flaps. Com um rugido crescente, o Spitfire avança pela grama úmida. As rodas sobem. A terra fica para trás.
O céu se abre. Dumont está ar novamente - uma sensação que pensou nunca mais experimentar.
Com o peito apertado, ele aciona o botão azul no painel.
Nada acontece de imediato. Mas então, os instrumentos ganham vida. Luzes tremem. O painel pisca como se recebesse instruções de outra era. E, no horizonte, uma faixa de céu clareia entre as nuvens negras. Um corredor de ar.
E então — o tempo se dobra.
Não há túnel. Não há luz. Há apenas uma sensação de velocidade impossível, de dimensões cruzadas. O botão azul pulsa uma última vez, e o mundo inteiro parece se reorganizar ao redor da silhueta do avião.
Lá embaixo, as primeiras construções familiares. As ruas de pedra. As torres da Grande Cidade. Dumont sorri.
O Spitfire sobrevoa as casas e edifícios. E por um instante, todas as cabeças se voltam para o céu.
O herói voltou. E com ele, a esperança de um futuro melhor.