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Capítulo II - Caminhando nessa terra

02 Caminhando nessa terra
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Depois de horas seguindo ao lado da linha de trem, Dumont está exausto. O sol pende no céu feito uma fornalha enfurecida quando o Capitão chega ao fim da pradaria.

 

À sua frente, estende-se uma vasta extensão de areia avermelhada e dunas cortadas por trilhos de trem enferrujados que desaparecem no horizonte como serpentes metálicas. "Talvez seja melhor passar a noite aqui e continuar amanhã", ele pensa.




No dia seguinte, Dumont acorda, ajusta os óculos de proteção e inicia a caminhada no deserto. Cada passo sobre a areia escaldante parece um desafio à própria sanidade. As engrenagens do relógio de pulso — uma preciosidade herdada de seu pai — tilintam suavemente, marcando as horas com uma precisão quase cruel.


Então, do nada, o horizonte se turva. A princípio, parece apenas uma miragem. Um borrão de poeira dançante. Mas logo os ventos começam a uivar. A tempestade se aproxima como uma criatura viva, feroz e ancestral, rugindo entre as dunas com garras de areia e dentes de granito.



Dumont corre. Não há abrigo à vista, apenas um desnível íngreme ao lado dos trilhos — um antigo barranco onde talvez ele possa se ancorar. O capitão se joga, protegendo o rosto com os braços e enfiando o corpo entre pedras e raízes secas.



A tempestade cai sobre ele como um martelo. A areia penetra em cada fresta de suas roupas, cortando sua pele como vidro. O mundo se reduz a um redemoinho de grãos e gritos do vento. Ele sente o peso do deserto acumulando-se sobre suas costas, e por um instante, pensa que aquele talvez seja seu túmulo.



Enterrado até o pescoço, ele espalha a areia com as mãos para evitar ser enterrado vivo. Quando finalmente os ventos se acalmam, ele emerge feito uma fênix encharcada de poeira grossa.



Dumont se ergue com dificuldade. O casaco pende dos ombros como um estandarte derrotado. Mas seus olhos ainda brilham. O deserto não foi o primeiro inimigo a tentar matá-lo. Nem o último a falhar.

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