
Capítulo VII - Isso é traição
Dumont permanece imóvel, os olhos fixos na figura do Marquês.
— Você me usou.
O Marquês ergue as sobrancelhas, teatral.
— Eu diria que lhe dei um propósito. Desde que caiu neste mundo — neste tempo — eu o observo. Sua integridade, sua disciplina, sua... nobreza antiquada. Exatamente o tipo de ferramenta que eu precisava.
Dumont cerra os punhos.
— Você me fez roubar. Sequestrar um inocente.
— Por uma causa maior. A minha. — O Marquês dá de ombros, como se isso encerrasse o assunto.
Dumont avança um passo. Os rifles dos guardas se erguem em resposta.
— E qual é exatamente essa sua “causa maior”?
O sorriso do Marquês desaparece. Seu olhar agora é puro aço.
— Dominar o tempo. Ir ao futuro, roubar armas que ainda não foram inventadas. Bombas inteligentes. Máquinas que matam sem piloto. Eu trarei tudo isso para cá. Para agora. E com esse poder... dominarei o mundo. — Ele estendeu os braços, como se já sentisse o trono sob seus pés. — Nenhum governo resistirá. Nenhum povo ousará se rebelar. Serão meus servos. Todos.
Dumont recua meio passo, como se o nojo físico o empurrasse.
— Você é louco.
— Sou um visionário. Veja, o mecanismo temporal embarcado no areoplano que o trouxe a esta era tem uma limitação. Ele só pode ir ao passado e voltar, nunca para o futuro.
O marquês aponta para a máquina do tempo e diz:
— Só esta maravilha aqui é capaz de realizar meu intento.
Num gesto rápido, Dumont puxa do casaco sua última cápsula de fumaça. Ele ativa a cápsula com um leve estalo e a joga no chão.
Uma nuvem branca e espessa se espalha como um fantasma raivoso. Os homens tossem e tropeçam, atirando a esmo. Dumont corre para o mezanino lateral, subindo pelas escadas retorcidas até uma plataforma de ferro a cinco metros do chão.
Ali em cima, protegido pelas sombras e colunas, ele respira ofegante. Sua mente gira — o Marquês precisa ser detido. Mas como? Sem recursos. Sem sua esquadra. E agora, também sem saída.
A voz do Marquês corta o ar como um chicote — Atirem nele!
Os homens se posicionam, miram, e o chão treme sob os primeiros disparos. Os tiros acertam as colunas de sustentação do mezanino, abrindo buracos no ferro antigo. Faíscas saltam como brasas, o som metálico dos impactos misturando-se ao grito das vigas em colapso.
Dumont se esconde atrás de uma coluna. O metal range uma última vez antes de ceder violentamente, lançando-o ao vazio junto com pedaços de grade, cabos e suportes.
O mundo vira de cabeça para baixo. E leva o Capitão junto.