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Capítulo V - O sequestro do perito

05 O Sequestro do Perito
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​A chuva fina tamborila sobre as telhas de zinco da varanda quando Dumont se vira para o Marquês, o cristal de berílio ainda apertado no bolso do casaco.

— E agora?

O Marquês de Tessália, de pé junto à lareira, traga lentamente um charuto. Os olhos, sempre semicerrados, agora parecem mais escuros, pensativos.

— Agora, meu caro Dumont… precisamos de um homem. Um único homem.

— Que tipo de homem?

— Um perito. O único nesta cidade capaz de ativar a máquina do tempo. Seu nome é Vasco Bragança. Um gênio, embora recluso e absurdamente paranóico. Desde que um experimento dele explodiu a ala norte do Instituto Técnico, vive escondido num antigo observatório transformado em abrigo de imigrantes mas depois abandonado. O pobre homem vive lá sozinho, isolado do mundo.

— E ele vai nos ajudar?

O Marquês solta uma risada seca.

— Não voluntariamente.

Dumont aperta os lábios, desconfortável.

— Está me pedindo para sequestrá-lo.

— Estou pedindo que complete sua missão. Ele é o único que pode operar a máquina. Sem ele, o cristal não passa de uma pedra bonita.

 

****


Algumas horas depois, Dumont se esgueira entre as árvores que circundam o observatório. O lugar é uma construção cilíndrica, com paredes descascadas e um domo metálico que range ao vento. Há fios estendidos por todo o terreno, ligados a campainhas de alarme. Holofotes giram em intervalos irregulares.

O Capitão analisa o terreno com calma. Com agilidade, ele escapa pelos pontos cegos dos refletores, pula sobre uma cerca de arame e se aproxima da parede lateral. Então ele usa ganchos se escalada para alcançar uma janela do segundo andar.

Lá dentro, o lugar é uma confusão de livros, bobinas, cabos e motores inacabados. O ar cheira a graxa, poeira e café queimado.

Dumont se move como uma sombra, deslizando entre as pilhas de papéis. O Capitão logo localiza o perito: um homem magro, de cabelos revoltos e olhos fundos, que murmura para si mesmo enquanto ajusta um painel de instrumentos.

Dumont hesita. A missão é simples. Mas ele nunca se sentira confortável agindo à força. A mão pousa no ombro do cientista com firmeza, mas sem brutalidade.

— Senhor Bragança.

O homem se vira, os olhos arregalados.

— Quem é você? Como entrou aqui? Está atrás dos meus projetos? Não vai levar nada! Eu...

— Preciso que venha comigo. É urgente.

— Você é um dos agentes da câmara militar? Da polícia secreta? Ou pior… do Instituto?!

— Não sou nada disso. Mas preciso da sua ajuda. E não tenho tempo para convencê-lo.

O cientista tenta gritar, mas Dumont o imobiliza rapidamente, com um lenço embebido em clorofórmio — uma das poucas práticas modernas que o Marquês insistira em ensinar-lhe.

Minutos depois, Dumont deixa o observatório com o corpo desacordado de Vasco nos ombros, evitando os refletores, contornando o alarme e desaparecendo na escuridão da noite.

 

Mais tarde, enquanto cruzam a estrada em direção à usina abandonada, Dumont fita o perito inconsciente, deitado no banco de trás do carro do Marquês.

— Espero que o senhor saiba o que está fazendo — murmura Dumont, mais para si mesmo do que para o velho nobre.

O Marquês não responde. Apenas sorri, enigmático, como quem ainda guarda mais segredos do que está disposto a revelar.


 

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