
Capítulo XI - O juízo final
A chuva engrossa, tamborilando sobre o telhado da mansão como dedos impacientes. O casarão se ergue no alto da colina - um mausoléu de mármore negro, envolto por névoa, seus vitrais lembrando olhos frios que observam o mundo com desprezo.
Dumont se aproxima em silêncio, a capa encharcada colada ao corpo, os punhos cerrados. Ali dentro, o último obstáculo. Ele escala o portão lateral, desliza pela treliça e arromba uma janela lateral com o cotovelo. A mansão está escura por dentro, mas ele sente a presença dos inimigos.
E eles não demoram.
O primeiro guarda surge no corredor, pistola em punho. Dumont
o desarma com um golpe seco e o apaga com o cabo da arma. Dois outros aparecem na escadaria. Dumont atira uma cadeira contra um, desequilibrando-o, e se lança contra o outro com um chute giratório que o derruba rolando escada abaixo.
O capitão avança pelos corredores do casarão, enfrentando um a um os lacaios do Marquês. A luta é feroz — um deles quase o sufoca com um laço de couro, mas Dumont se liberta ao bater com a cabeça para trás, quebrando o nariz do inimigo. Outro tenta golpeá-lo com uma lança elétrica improvisada; Dumont se abaixa no último instante e quebra a arma em duas com um gancho e uma cotovelada certeira.
Quando finalmente abre as portas duplas do salão principal, encontra o Marquês à sua espera. Vestido com um casaco de veludo escarlate, empunhando uma bengala com cabo de prata, o Marquês sorri. O olhar, no entanto, é puro veneno.
O Marquês ergue a bengala e pressiona um botão oculto. Lâminas se projetam dos lados do cabo. Ele gira o bastão com destreza de esgrimista e avança com agilidade surpreendente.
A luta começa.
Golpes e defesas, metal contra punhos, estalos secos ecoando pelo salão. Dumont tenta se aproximar, mas o Marquês é escorregadio como uma víbora. Usa truques — gás liberado do anel, estilhaços ocultos disparados da bengala, faíscas elétricas que quase atingem Dumont. Mas o Capitão é mais forte. E mais determinado.
O Marquês tenta golpeá-lo pelas costas, mas Dumont gira e prende a bengala entre os braços. Eles se encaram a centímetros um do outro, ofegantes, os rostos suados e marcados pela fúria.
— Você poderia ter tido tudo — sibila o Marquês. — Um lugar de honra no novo mundo.
— Eu prefiro morrer em paz a viver sob seu império.
Com um grito, Dumont torce a bengala e a arremessa longe. O Marquês tenta sacar uma pistola escondida na manga, mas Dumont a chuta antes que possa atirar. O Capitão desfere um soco. E outro. O Marquês cambaleia. Sangue escorre de sua boca. Com um último golpe, Dumont o derruba no centro do salão. Ainda assim, ele ri.
— Você é um homem de outra era, Dumont. Um museu ambulante...
O Marquês tenta se erguer, puxando uma pequena adaga escondida na bota. Mas Dumont já está sobre ele. Um movimento preciso, uma torção, e a lâmina vira contra o próprio dono. Dumont responde:
— Sim. E eu trago a justiça do passado em minhas ombreiras!
Num gesto rápido, definitivo, Dumont enterra a adaga no peito do Marquês. O vilão engasga, os olhos arregalados de surpresa, e então o corpo relaxa. Seus dedos escorregam da lâmina enquanto a vida escapa por sua boca em um sussurro final.
Silêncio.
A chuva continua, agora batendo nas janelas do grande salão como um hino fúnebre. Dumont se ergue, ferido, exausto, mas inteiro.