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Capítulo VI - A captura da usina

06 A Captura da Usina
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O céu está carregado de nuvens baixas e cinzentas quando o veículo preto pára diante dos portões enferrujados da antiga usina térmica. Dumont desce primeiro, o casaco longo esvoaçando ao vento morno que sopra da estrutura adormecida.

— A entrada para o subterrâneo fica nas galerias de carvão, logo após as caldeiras — informa o Marquês, que permanece dentro do carro, olhando tudo com seus olhos semicerrados, como se calculasse cada passo.

— E quanto aos operários? — pergunta Dumont, franzindo a testa diante da fumaça que escapava de uma das chaminés.

— A usina está desativada há anos. São apenas fantasmas por aqui. Ninguém para se preocupar — diz o Marquês, com um sorriso breve demais.

Dumont não responde. Algo não cheira bem — e não era apenas o ar saturado de ferrugem e cinzas. Ao entrar na usina, Dumont é recebido por um silêncio úmido e opressor. A estrutura é um labirinto de corredores metálicos, passarelas frágeis e grandes tanques vazios. Mas logo, ao passar por um compartimento lateral, ele ouve um som abafado: correntes.

O Capitão se esconde atrás de um guindaste abandonado e observa. Trabalhadorees, homens e mulheres de rostos magros e olhos opacos, manobram máquinas ainda em operação. Estão sujos de carvão e óleo, com tornozeleiras de ferro ligadas por correntes a trilhos de segurança. Em um mezanino, guardas armados vigiam tudo.

Dumont sente o sangue ferver.

Aquilo não é uma instalação abandonada. É um campo de trabalhos forçados, um lugar de escravidão. Movido pela indignação, Dumont arma uma das armadilhas de gás que trouxera consigo. Num dos corredores de controle, que dá acesso à sala dos guardas, ele derrama um líquido volátil nos dutos de ventilação e dispara um pequeno estopim.

A fumaça se espalha pelos corredores, provocando caos e confusão. Ele se move entre sombras, desativando um a um os guardas com golpes secos e precisos. Então Dumont libera os trabalhadores, quebrando os elos com uma chave-mestra encontrada no corpo de um supervisor.

— Quem é você? — pergunta um dos homens, com a voz rouca.

— Um amigo — responde Dumont. — Saiam daqui. Corram. E não olhem para trás.

Na sala subterrânea, onde os mapas do Marquês diziam estar a máquina do tempo, Dumont finalmente a encontra: um grande arco metálico embutido no chão, coberto por cabos grossos e cristais rachados. No centro, um painel de controle semicircular com marcas esculpidas que lembravam antigas runas mesopotâmicas misturadas com símbolos técnicos.

Enquanto admira o maquinário, Dumont ouve um clique seco atrás de si. Ele se vira, devagar.

Lá estão os homens do Marquês. Todos armados. E à frente deles, um rosto conhecido: o mesmo sujeito que havia tentado assaltar o velho na entrada da cidade. Agora,  de uniforme, com um coldre de couro brilhante e uma insígnia dourada no peito.

Atrás dele, o Marquês desce os degraus de ferro, passo a passo, mãos atrás das costas.

— Você mentiu para mim — diz Dumont, voz baixa, mas firme.

— Eu nunca disse toda a verdade — responde o Marquês, abrindo um sorriso cínico. — A diferença é sutil, mas importante.

Dumont avalia a situação. São pelo menos seis homens armados. Ele está no centro do salão, sem cobertura, e sem tempo para improvisar.

— A máquina é real, eu não menti — continuou o Marquês. — E logo você vai ver o quão útil ela pode ser.

As armas se erguem ao mesmo tempo. O dedo de Dumont se contrai sobre o fecho oculto do bracelete onde esconde sua última cápsula de fumaça.

 

O Marquês se aproxima, enfia a mão no bolso do casaco do Capitão e retira dali o cristal de berílio.

 

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